Bem vindo ao Visão Notícias - 07 de Maio de 2021 - 07:20

ESPECIAL PUBLICITÁRIO

Mulher que teve as mãos decepadas pelo companheiro faz um alerta

21 de Abril de 2021 ás 09h 27min, por Prefeitura de Cuiabá
Foto por Acervo/ Quebre o Ciclo

Com as mãos nós praticamos quase todos os atos do dia a dia, desde ao acordar, ao desligar o alarme do celular, por exemplo, até a hora de dormir, com o apagar da luz do quarto. Para Geziane Buriola da Silva, moradora da cidade de Campo Novo do Parecis, um município a 392km a noroeste de Cuiabá as simples ações já não podem ser realizadas. Em 10 de abril de 2017, Geziane foi vítima de uma agressão brutal de seu companheiro que com um facão lhe decepou os membros.

Uma relação que, no começo, ia “às mil maravilhas”, mas que, com o passar do tempo e acirrado pelo consumo de bebidas alcoólicas, tornou-se mais um caso de violência contra a mulher registrado em Mato Grosso.

“Tudo no começo é bom. Depois ele começou a mostrar as garras dele. Violento dentro de casa, começou a me bater. Até que aconteceu isso. Nós nos separamos três vezes. Da última vez que nós separamos, quando voltou, aconteceu isso. Minha mãe ainda falou que não era pra gente voltar, que ele ia acabar me matando. A gente não escuta conselho, né? Hoje eu fico só em casa, não trabalho, eu mesma que faço as coisas em casa. É bem difícil, porque é tudo com os tocos dos braços. Para tomar banho, fazer comida, tudo”, conta. “Tem coisas que eu não dou conta de fazer, tipo arrumar o cabelo, cortar uma carne, uma verdura. Tem que ter ajuda. Dependo de outras pessoas”, lamenta Geziane.

Morando sozinha em uma casa simples, a ex-diarista, mesmo com as limitações impostas pela falta das mãos, consegue fazer o serviço de casa. Lava as próprias roupas na máquina e descobriu um jeito para limpar a casa. “Vou torcendo o pano na centrífuga e vou limpando. Jogo água, passa o pano e vou centrifugando. É difícil, mas eu consigo passar rodo, vassoura. Tive que me adaptar. Mas para fazer comida eu me queimo direto, só que eu consigo. Moro sozinha, minha filha que vem me ajudar. E recebo ajuda de amigos, de vizinhos, e assim vai indo.”

A ex-diarista revela que o relacionamento com Jair era conflituoso, especialmente quando havia consumo de álcool. Hoje ela percebe ter relevado sinais do temperamento do ex-companheiro. “Sabia que ele batia na mãe dele e que foi preso porque matou um cara, mas eu não acreditava nisso não. Depois que aconteceu tudo isso, eu vim saber quanta coisa ele fez”, assinala.

Geziane conta que logo após terem reatado pela última vez, foram ao mercado e que o ex comprou o facão, de cerca de 80 centímetros. Ela só não imaginava quais eram as reais intenções dele.“Ele passou a semana amolando o facão. Eu só perguntava o motivo e ele falava ‘um dia você vai saber’. Certo domingo a gente estava em casa, ele ‘tava’ bebendo e eu também. Ele amolou o dia inteirinho esse facão, mas não passava pela minha mente que ele ia fazer isso.”

Como já sabia da agressividade dele ao consumir bebidas alcoólicas, Geziane resolver dormir na casa de uma amiga. Mas foi agredida antes mesmo de sair de casa.

“Ele me pegou pelos cabelos. Botou minha mão em cima da estante e pegou o facão. Eu o joguei para trás e saí correndo. Eu saí correndo e caí na porta da vizinha, mas ela fechou a porta na minha cara. Foi quando ele deu umas ‘golpadas’ na minha cabeça, no ombro, no rosto, barriga... Aí ele só falou assim, eu me lembro como se fosse hoje, ‘essa aqui já está morta’. Foram mais de 15 golpes. Quase mil pontos”, recorda-se.

“Não justificava ele fazer o que ele fez comigo. Hoje é triste para mim. Tem coisas que eu quero fazer e não dou conta. Eu me olho no espelho, não vejo aquela mulher que eu era. Eu me olho no espelho e fico pensando comigo, meu Deus, eu tinha tudo e hoje estou assim, dependente dos outros.”

Para Geziane, a pior consequência da agressão foi ter perdido as duas mãos. “A parte mais doída foi que ele arrancou as minhas mãos fora. Não foi fácil, não. Essa aqui tinha caído na hora e essa aqui ficou pendurada. Ele veio dos dois lados para cortar meu pescoço, e a minha defesa foi colocar as mãos na frente. Foi quando ele decepou as minhas mãos. Quinze golpes, na cabeça foi o corte mais feio. Na hora que ‘tava’ caída no chão, tive medo de morrer. Pedi para Deus não deixar eu morrer por causa da minha filha, do meu filho. Eu fiquei consciente o tempo todo, não desmaiei. Eu senti Deus pertinho de mim. Foi isso que me deu mais força para viver. Cheguei no hospital, conversei com os médicos. Falei o tipo do meu sangue, depois não vi mais nada. Só fui acordar depois de 25 dias na UTI.”

Ao todo, ela conta ter ficado dois meses em Cuiabá para se recuperar das agressões sofrida.

Justiça – Jair da Costa foi preso em flagrante pelo crime. “A Polícia chegou na hora, pegou e já levou ele para cadeia. Desde aquele dia ele está preso. Só fui vê-lo no dia do júri. Fiquei com medo, mas aguentei firme. Ele agiu com frieza, parecia que nada tinha acontecido.”

Para Geziane, a Justiça teve uma atuação rápida. “Ficaram do meu lado, me apoiaram. Se precisasse de alguma ajuda, era para procurar eles também. A Defesa da Mulher me procurou. Me senti bem. Fiz até medida protetiva, porque ele estava me ameaçando lá dentro da cadeia. Disse que pode passar 40 anos lá e quando sair vai me matar. Hoje ele está preso, tem que ficar lá, não pode sair. Hoje ele tem as mãos dele, eu não tenho. Por causa dele hoje eu não faço nada. Quero trabalhar e não consigo.”

Recuperação gradual – Foi por meio de uma ‘vaquinha’ virtual que a ex-diarista conseguiu arrecadar R$ 114 mil para aquisição de próteses. Contudo, em razão do peso, a adaptação ao uso delas não tem sido fácil. “Eu não me adaptei muito com ela, porque ela é muito pesada. Machuca, uso mais para sair de bicicleta, sair para rua.”

Julgamento – A sessão de julgamento de Jair da Costa foi realizada em 12 de julho de 2019, das 8h40 às 22h35. Após quase 14 horas, o Conselho de Sentença entendeu, por maioria, que ele era culpado pela tentativa de homicídio qualificado. A pena foi fixada em 15 anos e seis meses de reclusão. O júri foi presidido pelo juiz Pedro Davi Benetti, titular da 1ª Vara de Campo Novo do Parecis.

“Se passaram pouco mais de dois anos entre a data do fato e o julgamento. Houve recurso da decisão de pronúncia, que levou o acusado ao julgamento perante o Tribunal Popular do Júri. Nesse caso, respeitou-se a razoável duração do processo. Tanto é que o acusado não recebeu um habeas corpus por excesso de prazo na formação da culpa, foram respeitadas todas as garantias processuais que todas as pessoas acusadas têm e o acusado foi condenado pelo tribunal popular do júri”, asseverou o magistrado.

Segundo ele, a punição de Jair da Costa teve caráter pedagógico. “Esse caso teve uma repercussão estadual e nacional, houve divulgação desse fato em vários sites do país, e acredito sim que a resposta do Estado ajuda a punir.”

Parceria - Essa reportagem faz parte da série de histórias contadas pela campanha 'A vida recomeça quando a violência termina: quebre o ciclo' e que estão sendo promovidas pelo Poder Judiciário de Mato Grosso, em parceria com a Prefeitura de Cuiabá e a TV Centro América. A parceria ajuda a dar visibilidade às histórias reais de vítima de violência doméstica. O objetivo é dar amplitude a rede de apoio e canais de denúncia para que o ciclo da violência doméstica seja quebrado e que as mulheres tenham força para romper com relacionamentos abusivos.